A informação mais importante desse post é que degustar um vinho não é privilégio de ninguém. Para saber como degustar um vinho você não precisa ser sommelier, enólogo etc., para apreciar um bom vinho ou para detectar se o vinho não é tudo aquilo que prometeram. Para degustar um vinho, basta usar nossos órgãos dos sentidos e prestar bastante atenção.
Como degustar um vinho
Eu já vi muitas pessoas que não eram “entendidas de vinho”, mas que tinham ótimo olfato, paladar apurado e atenção a detalhes fazerem excelentes degustações. E quem gosta de cozinhar tem uma enorme vantagem. A pessoa já está acostumada a se atentar para sabores, cheiros, texturas, combinações. Sabe aquela pessoa que prova uma comida e sabe na hora o que está faltando? Ou que percebe de cara quais os ingredientes e temperos de um prato? Pois então: daí para saber como degustar um vinho é um passo.
É claro que certas impressões são bastante subjetivas. Cada um tem seus gostos e preferências. Portanto, um vinho que vai agradar um, pode não agradar outro.
Dessa forma, as técnicas de degustação de vinhos existem justamente para você poder descrever um vinho, e não simplesmente dizer “gostei” ou “não gostei”. Dá para aprender mais sobre os próprios gostos. Assim você pode dizer que gostou pelo motivo x; que você não gostou pela razão y. E isso facilita muito ao escolher e comprar o próximo vinho que você vai beber.
Além disso, com as técnicas de degustação dá para descobrir e aprender muita coisa. A principal é saber se um vinho está “bebível” ou não.
Mas é possível descobrir outras coisas legais também. Por exemplo: alguns vinhos só são bons para serem abertos depois de 5, 10, 15 anos. Eles precisam amadurecer. Outros precisam ser bebidos jovens, não duram muito tempo. Se você compra ou ganha duas garrafas de um mesmo vinho e resolve abrir uma delas, com as técnicas de como degustar um vinho você consegue descobrir se você abriu esse vinho cedo demais; se ele já está no seu declínio; ou se está perfeito para ser consumido.
Como segurar uma taça
Antes de começar, é importante segurar a taça pela haste ou pela base da taça, e não pelo corpo. Isso para não alterar a temperatura ou deixar aquelas marquinhas de dedos. Essa dica vale não só para a degustação, mas para tomar o vinho em qualquer outra ocasião.
Para quem não está acostumado, no começo é meio estranho segurar a taça pela haste, mas depois de um tempo aquilo vira um hábito e você nem percebe. Vai ficar tão natural que mesmo depois de umas tacinhas a mais você vai continuar segurando a taça pela haste numa boa, sem ficar pensando muito nisso.
Mas… isso também não é escrito em pedra. Se você quiser segurar a taça pelo corpo depois que tiver feito a degustação e estiver somente apreciando e se deliciando com um vinho, nenhum problema. O importante é ser feliz na vida.
Bom, a degustação de um vinho consiste em três passos:

1 – Visual
Aqui, é importante que a taça seja transparente. Para facilitar, incline a taça a 45°. Vamos olhar o seguinte:
Tipo de vinho – Se tiver muitas bolhinhas, é um espumante. Se não for, trata-se de um vinho “tranquilo” – esse é o nome técnico para os vinhos que não têm as bolhinhas dos espumantes.
Cor e tonalidade – Tinto, branco ou rosé. Aí, é importante olhar a tonalidade da cor. A cor do vinho muda com o tempo. Em geral, os tintos ficam mais claros, e o brancos, mais escuros. Um tinto de cor púrpura geralmente é sinal de que o vinho é jovem. Se for mais para o rubi (um vermelho mais apagado, a grosso modo), pode indicar que o vinho é mais velho.
E por que eu preciso saber se um vinho é velho ou jovem, afinal de contas?? Por que a cor ajuda a indicar se um vinho está maduro ou não para ser bebido. Se a cor tiver um aspecto ruim – um marrom sem brilho, por exemplo, significa que esse vinho já era. Você não olha para a comida antes de comer? Então, é a mesma coisa.
Brilho – Sabe aquele brilho do líquido, quando você olha a taça por cima? então, isso é um ótimo sinal, indica que o vinho está “vivo”. Se você for beber um vinho sem esse brilho, esquece. O vinho morreu, já era. Essa é uma dica bem boa porque você já descobre, só de olhar, se dá para beber esse vinho ou não.
Halo de evolução – Quando você inclina a taça, dá para observar a borda do líquido na parte de cima. Se aquela borda estiver mais clara, no caso de um tinto, isso indica que o vinho é mais velho.
Limpidez e transparência – O vinho é transparente ou turvo? Tem alguma coisa boiando? Se houver alguma coisinha no fundo da taça ou no próprio líquido, pode ser que seja borra. A borra acontece bastante em vinhos mais antigos.
Lágrimas – Quando você gira um vinho na taça, se formam “lágrimas” ou “pernas”, na parede da taça. Quanto mais álcool um vinho tem, mais lágrimas ele formará. Faça o teste com uma bebida mais alcoólica (cachaça ou outro destilado). Você vai ver que essas lágrimas vão ser bem densas, pesadonas. Isso é por causa da quantidade de álcool. No caso do vinho tinto, se a lágrima estiver um pouco colorida, pode ser um sinal de que o vinho é jovem.

2 – Aroma
“Cheirar” um vinho talvez seja a etapa mais importante de uma degustação, já que boa parte dos sabores que sentimos na verdade são aromas.
A primeira coisa nessa etapa da degustação é perceber se está tudo certo com os “cheiros” do vinho. Existem vários defeitos que podem ser percebidos pelo nariz, mas o principal é saber se o vinho está bouchonné ou oxidado.
Bouchonné é quando o a rolha é atacada por fungos, e esses fungos passam para o vinho. O cheiro é uma mistura de chulé com jornal molhado e mofo. Enfim, é bem ruim, dá para notar na hora. Se você for num restaurante e pedir um vinho que estiver bouchonné, você pode e deve chamar o sommelier da casa (ou próprio garçom, se não houver sommelier), explicar o problema e devolver o vinho.
Já o oxidado é aquele “cheirinho” de vinho aberto há muito tempo, causado pelo contato excessivo com o oxigênio. Esse cheiro geralmente é um defeito, mas em alguns tipo de de vinho é simplesmente uma característica (ex.: Jerez, vinho típico da Espanha, os Madeira e os Portos, de Portugal).
Nessa etapa, é legal tentar identificar os aromas. Geralmente, os vinhos têm aromas de frutas, flores. Quando existem aromas de coisas como chocolate, tabaco, caramelo, charuto e até aromas animais, como couro, é sinal de que o vinho é mais complexo. E isso é uma grande qualidade.
Identificar os aromas é uma combinação de imaginação, atenção e memória olfativa. A minha capacidade de lembrar aromas nunca foi muito boa, mas melhorou bastante depois que comecei a prestar atenção nesse tipo de coisa.
Com a prática, dá até para descobrir, pelo nariz, quais tipos de uvas compõem um vinho.

3 – Paladar : afinal de contas, como degustar um vinho?
Finalmente, a minha etapa favorita da degustação (deve ser a sua também). Essa etapa só começa a partir do segundo gole. O primeiro é, como dizem, só para limpar o paladar.
Uma coisa importante que você precisa saber é que os bons vinhos são bem equilibrados. Isso significa que nenhum componente é agressivo ou se sobrepõe demasiadamente aos demais. Esses são os principais componentes do vinho:
Açúcar – É a primeira sensação que você tem quando bebe ou come algo. Com isso, você já sabe se é um vinho seco (não é nada doce), se tem certa doçura (um demi-sec, por exemplo) ou se é doce. Isso ajuda, inclusive, a harmonizar um vinho com comida.
Acidez – A acidez é aquela sensação que dá quando você toma uma limonada e sente a boca encher de água. Trata-se de um dos componentes mais importantes de um vinho. Deve estar presente em todos os vinhos, de qualquer estilo. É a acidez que dá equilíbrio ao vinho, que o deixa refrescante. A acidez “compensa” o álcool.
Amargor – É considerado um defeito do vinho. Nos tintos, quando um vinho é amargo geralmente é por causa dos taninos. Nesse caso, os taninos podem estar “verdes” (o vinho não está pronto para ser bebido). Ou os taninos são de má qualidade – o que indica que esse vinho não é muito bom.
Adstringência (taninos) – É a sensação de boca amarrada, que nem quando se come banana verde. Se amarrar muito e for desagradável é mau sinal. Também indica que o vinho ainda não está pronto ou que ele simplesmente é ruim.
Álcool – Um vinho pode ter entre 7% a 15% de álcool. Só que mais importante do que a quantidade de álcool é a sensação de álcool. Quando você toma um bom vinho, você não sente sua boca ardendo ou a garganta esquentando. Esses são sinais de que o álcool está “sobrando” nesse vinho, de que ele está desequilibrado. Isso é ruim.
Corpo – É o peso do vinho na boca, a consistência ou a sensação tátil que ele provoca. O vinho pode ser leve, médio ou encorpado. Isso não é defeito nem qualidade, é característica. Depende do estilo do vinho.
Outra coisa importante na degustação de um vinho é a persistência: quanto mais tempo o sabores permanecem na boca, melhor é o vinho.
Só para concluir, esse passo a passo da degustação que eu coloquei é um pouco técnico, você não precisa fazer necessariamente tudo isso sempre. Mas o legal de tentar seguir esse roteirinho de vez em quando é que você aprende um monte de coisas (e esse conhecimento é cumulativo), e lembra de outras. Pelo menos para mim, uma das coisas mais legais de se tomar vinho (além de vinho ser uma delícia, lógico), é que você sempre aprende algo – mesmo se o vinho não for tão bom quanto você esperava.
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